quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Cristais de Prata

Era um dia daqueles que o tempo parece não contar. Fiquei sentado na sacada olhando o movimento das folhas das árvores. Tédio. Tentei dormir, não consegui. Tateei os bolsos à procura da minha carteira. Ela estava lá. Calcei os sapatos e me pus em direção a porta que levava ao corredor quando lembro que não tinha pego meus cigarros. Segui ao meu quarto e os encontrei caidos no chão. Guardei no bolso traseiro da minha calça e, finalmente, fechei a porta de casa. Não tinha percebido que em algum momento pegara minha câmera. 36 poses. Virgens. Esperando que eu as preenchesse de luz e sombras. Nuances do que me instiga, fascina, de tudo que não me pertence.

Estava pronto para que algo não usual acontecesse. Um telefonema de um antigo amigo, talvez uma mulher. Meu celular não tocou. Percebo o caminho que seguira quando me deparei com uma parada de ônibus. Fiquei ali, esperando o primeiro que passar pra decidir meu rumo.Não esperei muito até que ele chegasse. Subi sem ao menos tentar descobrir seu itnerário. Tinha apenas um banco vago, sentei e esperei. Uma criança chorava alto, aquele barulho irritante de uma vida nova. Mais um homem para trabalhar, votar e morrer. Não aguentei o choro da criança e desci mais cedo do que esperava: quarta parada após meu ingresso, se é que consegui contar com a súplica do bebe me atormentando.

Caminhei como quem caminha para a execução, passos curtos, aproveitando cada centímetro de asfalto e musgo sob meus pés. Depois de umas duas quadras encontrei uma pequena praça e sentei em um banco, de costas para a alameda pouco movimentada que me levara até ali. Não estava cansado, sentei pois era o melhor que eu tinha a fazer naquele momento. Acendi um cigarro e, lentamente, fui enchendo meus pulmões de nicotina.

Vi a silhueta de uma mulher caminhar em minha direção. Aos poucos, ela se aproximava e eu descubro que ela não era muito bonita. Posso dizer que ela possuia aquele tipo de beleza normal, sabe?  Uma daquelas pessoas que em um bar, ou qualquer outro lugar, se olha mas logo despista o olhar para alguma outra. Ela não tinha nenhuma característica marcante que a diferenciasse das outras, que a tornasse especial. Ela sentou do meu lado.

- Me empresta fogo? - falou ignorando completamente meus devaneios.

Estendi meu cigarro até a sua mão. Ela me olhou, sorriu, encostou a brasa na ponta do cigarro que encostava seus lábios. Não sei dizer porquê, mas senti ma beleza naquele gesto. Sorri. Devolveu-me o cigarro e  continuou ali, sentada.

- Gosto de tardes assim: vazias. Tudo parece parado, mas ao mesmo tempo em constante movimento. Entende o que quero dizer?

- Não. - menti. Sentia que meu dia tinha sido exatamente assim até então.

- Nada acontece, tudo permanece igual enquanto muda. Estou aqui, sentada e olho para a árvore que continua igual a ontem, mas as folhas se preparam para cair. Até que isso aconteça, ela permanece igual e então, a primeira folha cai. A segunda, a terceira. A quinta. Quando olhamos de novo, nenhuma resta. Só que o broto das novas folhas jpa ensaia seu crescimento desde o momento que a primeira folha caiu.

- Com a gente acontece a mesma coisa - interrompi - esperamos que as coisas mudem e quando nos damos conta, já mudaram. E no momento em que mudou, já está se preparando a próxima. E mais outra. Sem que façamos absolutamente nada. Simplesmente acontece. O dilema é: o que faz isso acontecer?

- Qualquer coisa. Tudo.

Depois disso, permanecemos em silêncio. O cigarro acabou. Ninguém ameaçou acender outro. E ficamos, parados, olhando as folhas das árvores caírem, não caiam. Os brotos nascerem, não nasciam. Nós mudarmos, não mudávamos. Assim, permanecemos algum tempo. Sem trocar nenhuma palavra, um olhar. Sabia, por algum motivo inexplicável, porém, que ela pensava o mesmo que eu - mesmo nem eu sabendo o que exatamente eu pensava naquele momento - e essa partilha de pensamentos me fez sentir muito mais próximo daquela desconhecida do que de todas as mulheres que já toquei um dia.

Do mesmo modo que chegou, ela foi embora. Levantou-se depressa, sem trocar uma palavra. Não se despediu. Não olhou pra trás. Me deixou ali, sozinho, do mesmo modo que estava antes. Continuei a olhar as folhas mudarem e permanecerem as mesmas. Saquei minha antiga Zenit. Analógica. Verdadeira. Uma foto: ela partindo.

Não sei dizer quanto tempo fiquei ali sentado desde que ela partiu. Como já disse, os segundos pareciam não passar. Podem ter sido 2 horas, 15 minutos, não sei. Já tinha que ir embora e levantei. Não queria dividir meu trajeto com desconhecidos no ônibus, muito menos fingir intimidade com algum taxista. Voltei a pé. Por algumas quadras o único barulho que escutava era o de meus próprios passos e, seguindo o ritmo, a minha respiração. Os segundos não pareciam passar. Posso ter caminhado por 2 minutos, 15 horas, não sei. Cheguei. Deixei a Zenit ao lado da porta. 35 poses. Virgens. Deitei sem jantar.

Eu não revelei aquele filme. Não o tirei da câmera. Deixei as outras 35 poses intocadas. Sujas. Esperando que aquela mulher reaparecesse na minha vida assim, aleatoriamente. Aí sim, preencheria o vazio deixado nos cristais de prata.

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