Me deram o tempo de um cigarro pra explicar. Encarei os dois por alguns segundos, hesitei. Cigarro, isqueiro. Fogo. Tomei mais um gole de vodka. A situação não me permitia aproveitar a bebida. Uma tragada, outra. Abri a boca, as palavras não queriam sair. Lembrei dela. Linda. Os olhos, o corpo. Os lábios. Mais uma. O malboro vermelho ameaçava despedaçar-se em um mar de cinzas e fumaça. O desespero me fazia acreditar que o tempo era mais curto. Eles me encaravam. Mais um gole. Gelada. Fumaça. A paciência dos dois se acabava junto com o cigarro. Talvez mais rápido, não sei. O que vestia terno não fumava. Só me olhava. Olhos firmes, concentrados em cada movimento meu. O outro seguia controlando o tempo que me restava. Não sei se a cara de prazer do homem era pelo extase de fumar ou era a certeza de que não restavam muitas tragadas. Cigarrobocafaringelaringetraquéia. Pulmão. Um, dois, três. Cinco. Traquéiafaringelaringeboca. Ar. O ritmo seguia constante. Não tinha escolha: devia falar algo. E rápido. “O que eu tenho a perder? Ela. Não, nem isso eu tenho mais.” Bebi. Não havia mais vodka, decepção. Só gelo derretido. O filtro se aproximava. O de terno esboçava um sorriso. Restavam umas 3 tragadas. Silêncio. Duas. “Porra, Cadê minha vodka?” Uma. Falei:
- Se fodam.Acabou. Estalo. Tiro. Chão.
Tudo. Nada.
Foi a melhor noite da minha vida.
incrivelmente legal. sério
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