segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Para escrever caso encontre algum Moleskine esquecido em um lugar qualquer.

Eu sei que cada página desse pequeno sketchbook é muito preciosa, também sei que tu, caro dono desse exemplar, deve estar à procura dessa preciosidade pela qual deslizo a ponta de minha caneta vermelha.

Desculpa tomá-lo, mas ao ver essa capa de couro preta escondida na sombra do banco da praça, não me contive em escrever algo. Pensei com cuidado antes de começar a formar as palavras nessas páginas amareladas - um conto, uma poesia, uma crônica- não podia errar, manchar de vermelho essa folha quase que sagrada, o que não seria impossível mesmo sem passar a caneta vermelha por aqui, pois cada linha que me aproxima do fim deste agrupamento me dá uma dor em continuar escrevendo, mas eu continuo, mesmo sem sentido.

Daqui do café onde molho meus lábios com este líquido amargo, eu posso vê-lo procurar pelo caderno que Heminghway escrevia, que Picasso desenhava. Continuo escrevendo. Eu podia ficar horas aqui, moldando palavras desconexas até preencher todas páginas restantes.

Patos, Beatles, judeus, 4. Mulher, sexo. Cigarros, caneta vermelha, sangue. Amor, ela. Ah, tantas amarguras eu podia citar e delas escrever minhas reflexões. Não vou, tu já te desloca, indo embopra, incrédulo de reencontrar essa preciosidade.

Não te preocupa, não vou aceitar a recompensa de 50 reais que oferece a quem encontrar esse caderno. Meu maior prêmio foi ter escrito essa página que dedico ao teu descuido. Quem sabe da próxima vez não escrevo um conto? Boa sorte, que hoje a vez foi minha.

Francisco do Canto

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