segunda-feira, 5 de abril de 2010

Cristais de Prata - Parte IV

Quarta e penúltima parte do conto "Cristais de Prata". Se ainda não leu as partes anteriores, seguem os links:
Parte I - Parte II - Parte III

Ela sempre trabalhou ali. Sempre. Eu nunca havia percebido. A pessoa que senta algumas cadeiras de distância de ti pode ter o potencial de ser teu melhor amigo, tua mais forte paixão, tudo depende das circunstâncias. E elas nos aproximaram. Agora eu sei, que na tanta visitada biblioteca, eu encontro a Gabriela. Não a Gabriela bibliotecária, que trabalha ali pra completar as horas no seu curso de letras, a Gabriela apaixonante. Que conversa com um estranho por alguns segundos e consegue fazê-lo nunca mais tirá-la da cabeça. A Gabriela que me fez querer preencher as 36 poses de um filme que eu quero que nunca acabe, e que se acabar, que tenha muitos outros a mão para substituí-lo. A Gabriela que tem, além dos meus olhos, meu coração.

    Depois daquele dia na biblioteca, nós ainda nos vimos umas 3 vezes. Jantamos juntos, conversamos. Transamos. Eu podia descrever cada segundo junto com ela e eu teria muito a escrever. Detalhar o encontro da nossa pele, dos nossos corpos - não com exatidão, pois tal sensação nunca poderia ser descrita em palavras, muito menos em uma imagem -, mas isso não foi o mais importante nos últimos dias. Já faziam três dias que não a encontrava, tanto nos corredores da faculdade, quanto na biblioteca ou até mesmo pelo celular - o qual, honradamente, eu tinha ouvido o número de seus lábios.
    Essa é outra sensação que não consigo explicar. Era como se uma parte de mim tivesse se perdido pelas ruas da cidade e que não quisesse ser encontrada. Me sentia irritado, angústiado, sozinho, impaciente. Procurava o rosto dela em cada pessoa que passava na rua. Homem, mulher. Alta, baixa, magra, gorda. Ruiva, morena, loira. Ela tinha que estar em algum lugar. Eu fumava quase duas carteiras por dia. Troquei o café na manhã por uma dose de vodka. Ainda andava com a zenit à tira-colo. O gatilho já estava pronto para uma pose, um tiro. Mas o disparo  não significava o fim, e sim a imortalização no negativo que iria ser revelado. Perdi algumas aulas importantes na faculdade. Minha mãe apareceu no meu apartamento pra ver se estava bem, eu estava. A campainha tocando me fez saltar da cama, colocar uma camiseta suja do lado avesso e correr pra atender a porta. Vendo minha mãe ali, me desatei a chorar. Olhei no rosto dela e ela me disse apenas isso:
    - Eu não sei o que te fez ficar assim, mas tenho certeza que algo tem de ser feito pra voltar ao normal.
    Ela entrou sem pedir licença e arrumou todo o meu apartamento. Não trocamos mais nenhuma palavra, depois foi embora com aquele olhar de mãe, que diz tanto sem proferir uma palavra. Eu sabia que ela acreditava em mim, e que dizia que me amava. Fui fazer algo a respeito do que me deixou sem chão.
    Comecei pela biblioteca. Encontrei um dos meus professores, que cobrou minha presença na sua aula, mas não dei bola. Procurei ela, não encontrei. Perguntei se ela tinha aparecido por lá, e, surpreendentemente, soube que não passava por ali pelo mesmo tempo que não a via. Depois disso, passei até pelo restaurante que jantamos algum tempo antes, para então, chegar ao local de sempre: a praça. Onde tudo começou, onde tudo podia acabar. Sentei no mesmo banco já marcado pela nossa presença, e esperei. Esperei que mais uma vez a visse estendendo a mão para acender o cigarro, estendendo os lábios para que a beijasse, o corpo para que eu tocasse. Não veio. Olhei no relógio e vi que já haviam se passado duas horas. Voltei pra casa.

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